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Kamis, 22 Mei 2014

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O MITO BRASILEIRO DO POKER EM ENTREVISTA EXCLUSIVA À SPORTYARD!!
Humildade e ambição. Palavras que aparentemente não têm nada em comum. Um grande sonho e a calma de saber que um dia chegaria lá bastaram para Alexandre Gomes provar a existência de uma relação entre elas. A ideia de se tornar um profissional do poker não fazia sentido para aquele garoto comum que começava a carreira de advogado e tinha seu primeiro contato com este jogo de cartas em 2007. Um ano depois, estudo, dedicação e foco levaram Alexandre a Las Vegas para competir no maior campeonato mundial de poker, o WSOP.
A humildade de Alexandre o levou ao topo e deu início a uma nova visão do poker no Brasil. Ao ser campeão do WSOP 2008, todos voltaram seus olhos para o brasileiro. Engana-se quem pensa que ele estava satisfeito. “No poker, não existe o pensamento ‘cheguei ao topo e pronto’”, diz. Consciente de que não viverá do poker para sempre, Alexandre investiu em empresas ligadas ao jogo. Em entrevista à Sportyard, Alexandre exibiu as cartas que tem na manga. Aspectos de sua vida profissional e pessoal foram revelados. Pela primeira vez, ele mostra o prêmio que recebeu por vencer o SCOOP, torneio disputado na internet no primeiro semestre de 2012. Agora, ele se prepara para competir no WTP em Cannes, na França.
S: Como começou seu interesse pelo poker?
A: Eu joguei por muito tempo truco, na época da faculdade. Mas era apenas diversão, ganhava alguns troféus. Até que, em 2005, um amigo me chamou para participar de um campeonato de poker. A inscrição era R$100. Hesitei um pouco, mas meu amigo me convenceu com o seguinte argumento: “ou a gente ganha, ou a gente perde e não joga mais”. Participaram umas 60 pessoas. Eu não fui longe, mas meu amigo chegou à mesa final. Nós saímos deslumbrados com o jogo, com as regras. Passei a jogar na casa de amigos, como brincadeira mesmo, até que me cadastrei em sites de poker. Comecei a me informar, descobri que havia torneios de US$25 mil. Era uma ideia distante para mim, mas em três anos eu estava lá, disputando. Comecei com os campeonatos baratos, com inscrições de dez dólares. Em um desses, cheguei a ganhar US$13 mil. Foi quando percebi que poderia ganhar dinheiro com isso.

S: Você mergulhou no mundo profissional do poker em 2008. Você acredita que muita coisa mudou de lá para cá?
A: O poker sempre sofreu muita discriminação. A mídia em geral, mas principalmente a televisiva, “bate” muito quando o assunto é jogo. A ênfase sempre é nas pessoas que perderam. Na verdade, o retrospecto do jogo de baralho (não especificadamente o poker) no Brasil é negativo. Com o tempoisso está mudando. Agora as pessoas conhecem melhor, mas não o suficiente. Em 2008, quando eu era entrevistado, os jornalistas praticamente não tinham noção do que estavam falando. Nos últimos quatro anos, a cobertura da mídia deuum salto impressionante. Prova disso é que alguns canais até transmitem os campeonatos, como é o caso da ESPN, por exemplo. Com o aumento da audiência, os patrocinadores investem mais, o poker recebe maior destaque e as pessoas ficam mais bem informadas. Pode-se dizer que foi uma mudança drástica, e eu vivi todas essas fases. Quando comecei, falava que era profissional de poker e as pessoas davam risada. Elas diziam: “Você é daqueles que um dia ganha e no outro perde tudo?” Elas não conseguiam entender que era minha profissão. Hoje em dia já reconhecem. É um avanço.

S: Você acha que é possível comparar a exposição na mídia do poker com a do MMA?
A: Com certeza. No início, falavam que ambos não eram esporte. Mas hoje isso mudou. Uma vez, quando estive em Las Vegas, visitei a academia do Wanderlei Silva. Ele deixou claro que não joga poker, mas ficou curioso pra saber como funciona. Mostrei como era na internet, ele ficou fascinado. São dois esportes que cresceram de maneira absurda e superaram um grande preconceito da sociedade.

S: Falando em internet, ela também fez com que o poker ganhasse destaque, através dos sites de jogos?
A: Sem dúvidas. Hoje em dia a aceitação é maior, todo mundo conhece alguém que joga. E vários fatos ajudaram a chegar neste ponto. Mas o reconhecimento como esporte foi de extrema importância, pois colocou o poker no mesmo patamar de xadrez e gamão, por exemplo. Os três são esportes de raciocínio puro, de lógica, o que desassocia aquela ideia de cassino.

S: Existe, então, diferença entre o poker de cassino e o jogado em campeonatos?
A: Na verdade, um não tem nada a ver com o outro. No cassino, você joga contra a banca, no poker de campeonatos você joga contra outras pessoas. Além disso, neste último, o dealer (carteador) apenas distribui as cartas, ou seja, ele não participa do jogo. Essa é a maior diferença.

S: Nos campeonatos, tem torcedores? Eles ajudam ou atrapalham a concentração?
A: Tem, sim. É como em estádios de futebol. O brasileiro tem muito disso, não é mesmo? Nas finais de poker é que se vê mais isso. O ápice é chegar a uma final, claro. Mas é até engraçado, porque os “gringos” olham com espanto. Eles devem pensar que nós somos malucos (risos). Quem está jogando recebe a vibração da torcida. É como em qualquer outro esporte, passa energia.

S: Esse contato com a torcida só é possível em campeonatos presenciais. Você prefere, então, esses aos jogados pela internet?
A: Na verdade, eu só prefiro a internet porque posso jogar em qualquer lugar. Ou seja, não preciso viajar, o desgaste é menor. Por outro lado, o glamour dos jogos ao vivo é fascinante. Eles são disputados nos melhores hotéis, das melhores capitais. Além, claro, do valor das premiações. Pela internet, você pode ganhar US$100 mil. Em presenciais, o prêmio pode chegar a um milhão de dólares. São mundos distantes, as habilidades do jogador são diferentes. É muito raro quem se destaca pela internet e em presenciais. Se for comparar, é como o futebol de campo e o de salão. O Falcão, por exemplo, é um craque nas quadras e não se destacou no campo. Isso não significa que ele não seja bom. No poker acontece o mesmo. Existem gênios na internet, mas que não vão longe ao vivo. A internet é mais veloz, você consegue jogar mais mãos. Porém, não tem aquela análise da fisionomia, você apenas tem acesso a um banco de dados com informações dos adversários.

S: Quando você joga campeonatos presenciais, nos quais é necessário viajar, você leva alguém com você?
A: Normalmente minha esposa vai junto. Nos últimos meses, ficou um pouco complicado devido à gravidez e ao nascimento do nosso filho. Mas eu sempre levo alguém, serve como um apoio. A vida do jogador é solitária, precisamos ter alguém para conversar enquanto não estamos na mesa jogando.

S: Você segue algum ritual antes dos campeonatos?
A: O importante é ter a cabeça e o corpo descansados. São muitas horas em uma mesa, os intervalos são pequenos. Dormir bem, comer alimentos leves, estar bem psicologicamente são aspectos importantes.

S: Além do poker, quais são suas outras atividades?
A: Eu me formei em Direito, mas estou afastado dessa área há seis anos. Montei uma equipe de poker com sete jogadores e invisto neles. Também dou aulas e palestras. Tenho uma loja que vende produtos de poker e uma empresa de pagamentos de prêmios, além de continuar me atualizando no poker. Não dá para parar de estudar as tendências, técnicas, estilos de jogo novos, etc. Estou sempre lendo artigos, analisando o mercado. Se você parar, você está fadado a estagnar ou retroceder. No poker não existe o pensamento “cheguei ao topo e pronto”.

S: Você falou em estilos de jogo. Quais são esses estilos?
A: Tem o jogador mais agressivo e o conservador. O primeiro é mais ativo, aquele que participa em várias mãos, quer tomar a iniciativa. Ele impõe mais ritmo, gosta de atacar, definir a aposta, colocar pressão. Já o conservador geralmente se defende e dificilmente ataca.

S: A qualquer momento o jogador pode aumentar o valor da aposta?
A: Sim. É o chamado formato “no limit”, ou seja, sem limite de aposta. Você pode colocar todas as suas fichas. Mas vale lembrar que é importante administrá-las. Se você perder todas, está fora do jogo.

S: Existem pessoas que jogam apenas para brincar? Ou todos entram neste mundo para ganhar dinheiro?
A: Tem sim. Muita gente joga só pela brincadeira. Até mesmo em campeonatos. Por exemplo, a pessoa joga pela internet, apenas como hobby. Mas ele sonha em um dia jogar em um campeonato grande, com inscrições caras. O que acontece é que ele pode ganhar a vaga pela internet, nos chamados satélites. Assim, ele vai poder competir em um torneio grande. Se não ganhar, também não perde nada. Eu costumo dizer que existem três tipos de jogadores. O primeiro é aquele que só quer brincar, indiferente de estar ganhando ou perdendo. É como ir ao cinema, você paga para assistir a um filme e se divertir. O segundo é aquele que quer ter um hobby lucrativo. Não precisa viver disso, mas quando joga, quer ganhar. E o último é o profissional, aquele que investe na carreira para colher frutos. Diferentemente do primeiro tipo de jogador, ele investe tempo e dinheiro. Mas nem todos nasceram para ser profissional.

S: Então tem muita gente que joga apenas por prazer?
A: É isso mesmo. Por sinal, tem muitos esportistas famosos que participam de torneios. Não vou citar nomes para evitar problemas com patrocinadores (alguns ainda receiam a ligação com o jogo). Mas um grande exemplo é o Boris Becker, extenista alemão. Ele joga, já fez até propagandas para a TV de lá. Essas situações ajudam a mostrar que o poker não é algo errado, é um esporte.

S: E por que é considerado um esporte?
A: É um esporte da mente, de estratégia. Você não depende apenas das cartas, é preciso observar o jogo, os adversários. Como em qualquer outro esporte, é preciso ter disciplina, respeito pelo oponente, estudar as técnicas, estar bem preparado.

S: Qual é a lógica do poker?
A: O poker é um jogo de estratégia. Ele envolve pessoas, não se pode dizer que é simplesmente um jogo de cartas. Antes de tudo, é de pessoas. Você não depende apenas do baralho, mas principalmente de saber quem você está enfrentando. A partir do momento que você identifica as características do adversário, aprende a desarmá-lo. Tem gente que pensa que se não vier a carta certa, não ganhará. É justamente o contrário. Quem entende isso é perspicaz, não joga apenas com as cartas. É preciso analisar quem está mais forte, perceber os sinais do adversário. Ou seja, o “segredo” é o seguinte: não interessa as cartas que eu tenho, mas conhecer quem estou enfrentando. Por isso que o poker é um jogo de estratégia. Você pode enfrentar alguém de igual para igual, conseguir blefar, fugir de uma situação, jogar as cartas na hora certa. Poker não é jogo de achismo. Você recebe informação o tempo todo.

S: De maneira sucinta, o que diferencia o poker dos demais esportes?
A: O xadrez, por exemplo, é um jogo de formação completa, enquanto o poker é de formação incompleta. Ou seja, eu só tenho acesso às minhas cartas e você só às suas. É preciso prever o que o adversário tem e conhecer a maneira que ele joga. Além disso, como eu disse, no poker você é capaz de enfrentar o oponente de igual para igual. Quem está começando agora pode cair na mesma mesa de jogo que eu e competir no mesmo nível. Em que outro esporte isso é possível? Quando que um time de futebol da série D vai enfrentar um da série A com chance de vencer?

S: Por isso que você considera o poker apaixonante?
A: Também. O poker é um esporte competitivo, mas onde você coloca as pessoas em um patamar de igualdade. Elas pagam o mesmo para entrar em um campeonato e recebem o mesmo número de fichas. O objetivo é acumular todas, então você precisa ter uma estratégia. Assim, é um esporte dinâmico, estratégico, você tem que saber quando recuar, adaptar-se às situações. É um jogo complexo e, por isso, cativante. Nós, do meio, costumamos dizer que é preciso cinco minutos para aprender, mas uma vida para entender o poker.

S: Quando você ganhou o WSOP, em 2008, naquele que foi o primeiro grande campeonato de sua carreira, não passou pela sua cabeça parar e ficar com o prêmio?
A: Não, o efeito foi reverso. Eu achei que a partir dali eu conseguiria me estabilizar. Vi gente que ganhava cem, trezentos mil por mês. É um montante que foge da realidade normal. Eu estava no começo da carreira de advogado, batalhando. Não tinha muito tempo, então eu jogava de madrugada. Comecei a praticar cada vez mais e, com o despertar do meu interesse, comecei a estudar o jogo, ler livros, sites, etc. Eu queria aprender tudo. Com o prêmio, decidi me organizar, fazer um controle de caixa. Claro que me dei ao luxo de fazer uma viagem com a minha família, fomos para Porto de Galinhas. Mas passei a guardar, para administrar meu caixa. É o que nós chamamos de bankroll no poker. Investi em campeonatos maiores, queria jogar em Bahamas, Monte Carlo, Londres. Assim, o prêmio serviu como uma alavanca para minha carreira profissional. Resolvi sair do escritório de advocacia do qual era sócio e seguir apenas com o poker. Nessa época eu já estava envolvido com o jogo havia dois anos. Foi quando me tornei campeão do mundo. Minha vida mudou drasticamente, recebi proposta de patrocínio do Poker Stars, que foi mantido por três anos.